terça-feira, 19 de agosto de 2008

Só isso.

É só um cara. Não o "denso lago de mistérios gazosos onde você mergulhou e ainda não submergiu". Nem o "sustentáculo de todos os ossos de seu corpo", tampouco "o mármore no qual está gravada a suprema razão de sua existência".
É só um cara.
E quer mesmo saber? É um cara como todos os outros caras. Esse que te perguntou as horas no meio da rua – podia ter sido ele e você nem ligou. O mendigo, o ginecologista, o padre, o dealer. Ele estava ali o tempo todo. E ele não estava. Ele é só um deles. Vários. Uma legião. E ninguém.
É só um cara.
E não a sua vida. E não todos os dias da sua história. E não todas as suas lágrimas juntas em um único sábado solitário. Ele não é o destino. É um cara. Existem muitos destinos.
Ele é só um cara que mal sabe escolher os próprios perfumes. Mal sabe fazer escolhas. Não sabe sangrar. Não sabe que nome daria a um filho. Não pode ficar mais tempo. Ele é só um cara perdido como muitos outros caras que você encontrou. E perdeu.
Ele é só um cara.
E você já esqueceu outros caras antes!

Texto adaptado.


terça-feira, 12 de agosto de 2008

Morar comigo.

Morar sozinha é um eterno exercício de conviver com a falta das coisas. Falta comida na geladeira, falta Veja Multiuso, falta Carpex e falta gelo no congelador. Faltam coisas que a gente, simplesmente, esquece de comprar. Só que, tem dias, como as tardes de domingo, que faltam muito mais coisas do que essas que a gente simplesmente esquece de comprar. Falta a conversa com a melhor amiga de infância que não está aqui mais, falta o colo da mãe, falta o "paidrasto" instalando fios pela casa e consertando o DVD, falta a briga com a irmã mais nova, falta o conselho da irmã mais velha, falta o latido do Titilo no pátio, falta o carinho do namorado (!!!), falta aquele filme tosco com edredom no sofá da sala, com a mãe passando de uma lado para o outro.
Quem mora sozinha, às vezes, se sente a pessoa mais triste do mundo. Mas não é tristeza. É só saudade. Como já disse Miguel Falabela, "saudade é (...) não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche" e eu digo mais. É não saber o que fazer com as tardes de domingo que nunca terminam. As tardes de domingo, quando cada um está na sua casa, com sua família, com seu namorado e, você está na sua casa, com sua TV e o DVD (pirata) de Sexy on the City.
Morar sozinha é nunca ter almoço em casa. Ninguém cozinha pra uma pessoa só. Guardar o resto da comida? Nem pensar. Duraria uma eternidade na geladeira. Quem mora sozinha não pode ter nunca a geladeira cheia. Tudo estraga. Experiente comprar um queijo Minas, por exemplo. E a penca de bananas? De cada doze, você come duas e o resto joga fora. Preta.
Morar sozinha é almoçar no self-service. É ligar, às duas da tarde, para a amiga que está almoçando com os pais na churrascaria, e para uma outra, que está com o namorado na pizzaria da esquina da sua casa. E você, comendo arroz integral no self-service. É ter que fazer supermercado no sábado à noite e dar aquela "ajeitada" na casa que está de cabeça pra baixo e você não faz a mínima idéia de quem bagunçou aquilo tudo! É levar a roupa pra lavanderia segunda-feira meia noite.
É voltar pra casa sozinha, chorando, depois de terem partido seu coração às duas da manhã numa festa que você pensou que seria a festa do ano. Chorar assentada na beirada da cama, deitar e dormir. Viver sozinha é aprender a dar valor às coisas simples da vida: o cheiro de quem a gente gosta, a conversa jogada fora, a crise de riso (por um motivo que nenhuma outra pessoa no mundo acharia graça), o abraço de quem não volta mais, a tarde na beira da praia, os pés embolados debaixo do edredom, o socorro à 1h30 da manhã de terça-feira quando você não tinha forças nem pra se levantar. Morar sozinha é aprender a conviver com sua própria companhia e ter que gostar dela.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Aprendi a hora de me retirar


Dizem que os incomodados é que devem se retirar. Concordo. Se alguma coisa me incomoda, abandono o barco. Chuto o tal do balde. Ficar insistindo em uma coisa que não vai dar certo nunca foi a minha especialidade, apesar de ultimamente eu ter praticado bastante. Manter namoros estressantes, amizades interesseiras, empregos sem futuro não faz muito sentido na minha cabeça. É por isso que estou sem namorado, que tenho amizades contadas nos dedos e que ganho pouco. Desculpe minha mania de ser clichê, mas a vida é muito curta pra gente perder tempo.

Não é nada fácil me agüentar, eu sei. Sou implicante. Pouco tolerante. Sem paciência. Pirracenta. Mimada. Falo o que penso. Faço o que tenho vontade. E pior: sou adepta de uma filosofia de vida muito objetiva que eu mesma desenvolvi: "Se quer, quer. Se não quer, DIZ". Muito simples. E é assim que eu gostaria que agissem comigo. Não me quer, saia da minha vida logo. Me quer? Faça por merecer.

Não puxo saco de ninguém. Detesto que puxem meu saco também. Nunca saí com quem não queria estar comigo. Nunca fui à festa sem ser convidada. Não faço amizades por conveniência. Não sei rir se não estou achando graça. Não seguro o choro se o coração estiver apertado. Não atendo o telefone se não estou com vontade de conversar. Não namoro pra falar que tenho companhia. Nunca pertenci a grupos em que as pessoas pensassem, agissem e se vestissem todas iguais. Nunca precisei me drogar pra pertencer a nenhum grupo social. Isso não sou eu.

Eu sou a guria cansada dos padrões machistas da sociedade. Sou eu a guria cansada de ver as capas de revistas com corpos de fora e imaginar se o que conta realmente é ter alguma coisa por dentro. A guria que, de tanto pensar, não dorme. De tanto não dormir, não pensa. A guria que, aos onze anos de idade, queria consertar o mundo falando só a verdade e participando de grupos de caridade. A guria que não confia nos homens, não acredita na humanidade e que ainda vai dar o que falar. Sou eu, essa estranha. Sonho que sou a Branca de Neve e acordo engasgada com a maçã.

E de tanto comer maçã podre, aprendi. Agora, jogo fora o que não presta. Ou melhor, saio eu mesma do jogo. Não faz mais sentido acreditar que a sua amiga interesseira vai ser uma pessoa melhor depois que você conversar com ela. Ou que seu namorado vai mudar aquele hábito que te incomoda porque ele te ama. Ou que seu chefe vai reconhecer seu esforço e não vai te demitir quando precisar reduzir o quadro de funcionários. Não funciona dessa forma. Por isso, saio fora antes do final do jogo se eu não estiver de acordo com as regras. Me retiro se a incomodada sou eu.O que incomoda vai estar sempre ali no mesmo lugar. Mas você não precisa estar. Mude de lugar. Mude de casa. Mude de emprego. Mude de amigo. De ficante. De namorado. De marido. Mude de atitude. Só não fique parada reclamando. Faça aulas de boxe. Aprenda a dar socos, a fazer gestos obscenos, a falar palavrão, a xingar as pessoas, a largar tudo pra trás. Aprenda a não levar a vida tão a sério. Aprenda que o stress só vai destruir seu estômago e torrar seu dinheiro em análises e remédios caros. Aprenda que as pessoas não são do jeito que você gostaria que elas fossem. Eu aprendi. Aprendi a hora de me retirar: vou embora antes do final da festa.