Morar sozinha é um eterno exercício de conviver com a falta das coisas. Falta comida na geladeira, falta Veja Multiuso, falta Carpex e falta gelo no congelador. Faltam coisas que a gente, simplesmente, esquece de comprar. Só que, tem dias, como as tardes de domingo, que faltam muito mais coisas do que essas que a gente simplesmente esquece de comprar. Falta a conversa com a melhor amiga de infância que não está aqui mais, falta o colo da mãe, falta o "paidrasto" instalando fios pela casa e consertando o DVD, falta a briga com a irmã mais nova, falta o conselho da irmã mais velha, falta o latido do Titilo no pátio, falta o carinho do namorado (!!!), falta aquele filme tosco com edredom no sofá da sala, com a mãe passando de uma lado para o outro.
Quem mora sozinha, às vezes, se sente a pessoa mais triste do mundo. Mas não é tristeza. É só saudade. Como já disse Miguel Falabela, "saudade é (...) não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche" e eu digo mais. É não saber o que fazer com as tardes de domingo que nunca terminam. As tardes de domingo, quando cada um está na sua casa, com sua família, com seu namorado e, você está na sua casa, com sua TV e o DVD (pirata) de Sexy on the City.
Morar sozinha é nunca ter almoço em casa. Ninguém cozinha pra uma pessoa só. Guardar o resto da comida? Nem pensar. Duraria uma eternidade na geladeira. Quem mora sozinha não pode ter nunca a geladeira cheia. Tudo estraga. Experiente comprar um queijo Minas, por exemplo. E a penca de bananas? De cada doze, você come duas e o resto joga fora. Preta.
Morar sozinha é almoçar no self-service. É ligar, às duas da tarde, para a amiga que está almoçando com os pais na churrascaria, e para uma outra, que está com o namorado na pizzaria da esquina da sua casa. E você, comendo arroz integral no self-service. É ter que fazer supermercado no sábado à noite e dar aquela "ajeitada" na casa que está de cabeça pra baixo e você não faz a mínima idéia de quem bagunçou aquilo tudo! É levar a roupa pra lavanderia segunda-feira meia noite.
É voltar pra casa sozinha, chorando, depois de terem partido seu coração às duas da manhã numa festa que você pensou que seria a festa do ano. Chorar assentada na beirada da cama, deitar e dormir. Viver sozinha é aprender a dar valor às coisas simples da vida: o cheiro de quem a gente gosta, a conversa jogada fora, a crise de riso (por um motivo que nenhuma outra pessoa no mundo acharia graça), o abraço de quem não volta mais, a tarde na beira da praia, os pés embolados debaixo do edredom, o socorro à 1h30 da manhã de terça-feira quando você não tinha forças nem pra se levantar. Morar sozinha é aprender a conviver com sua própria companhia e ter que gostar dela.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
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Um comentário:
Entendo completamente o que queres dizer!
Fez a tradução perfeita da situação, parabéns!
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