segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Me rendo.

Oi. Não ando com muita inspiração pra escrever ultimamente, mas hoje li um texto, de uma das minhas cronistas favoritas e me rendo à ela.
Conta uma história que é conhecida não só por mim, como, aposto que por quem ler esse texto também. Pras minhas amigas, vou usá-lo para justificar essa minha insistência em bater na mesma tecla. Apesar de receber algumas provas de que eu não tenho uma única opção, persito, insisto e não desisto de querer aquela mesma pessoa. E quando a tenho, meu coração fica tranquilo. O que tem acontecido ultimamente, é o exato teor do texto que vou transcrever. Quando brigo, fico mais agoniado do que o normal. Nossa relação oscila entre o distante e o mais distante ainda, não sei explicar, por isso nem vou arriscar. Me puxam e gritam meu nome, me chamam de linda e dizem o quanto sou inteligente, desculpem a pretensão. Mas eu só quero uma única coisa, uma única voz, não importa o que ela diga. Pode não me chamar mais de linda, nem ressaltar a minha inteligência, mas me faz confessar todas as minhas angústias, me causa reações, provoca minha raiva mais profunda, me faz gritar, berrar, chingar e sofrer. Amar.

As contradições do amor

Martha Medeiros - Jornal O Globo
Eu estava quieta, só ouvindo. Éramos eu e mais duas amigas numa mesa de restaurante e uma delas se queixando, pela trigésima vez, do seu namoro caótico, dizendo que não sabia por que ainda estava com aquele seqüelado etc., etc. Estava planejando terminar com o cara de novo, e a gente sabia o quanto essa mulher sofria longe dele. Eu estava me divertindo diante desse relato mil vezes já escutado: adoro histórias de amor meio dramáticas. Foi então que a terceira componente da mesa, que é psicanalista, disse a frase definitiva:

- Eu, se fosse você, não terminava. Às vezes ficamos mais presas a um amor quando ele termina do que quando nos mantemos na relação.

Tacada de mestre. A partir daí, começamos a debater essa inquestionável verdade: em determinadas relações, ficamos muito mais sufocadas pela ausência do homem que amamos do que pela presença dele. Creio que vale para ambos os sexos, aliás. Um namoro ou casamento pode ser questionado dia e noite. Será que tem futuro? Será que vou segurar a barra de conviver com alguém tão diferente de mim? Será que passaremos a vida assim, às turras? Óbvio que não há respostas para essas perguntas, elas são feitas pelo simples hábito de querer adivinhar o dia de amanhã, mas a verdade é que, mesmo sem certificado de garantia, a relação prossegue, pois, além de dúvidas, existe amor e desejo. E isso ameniza tudo. Os dois estão unidos nesse céu e inferno. Até que um dia, durante uma discussão, um dos dois se altera e termina tudo. Alforria? Nem sempre. Aí é que pode começar a escravidão.

Nossa amiga queixosa, a da relação ioiô, perdia o rumo cada vez que terminava com o namorado. Aí mesmo é que não pensava em outra coisa. Só nele. Não conseguia se desvencilhar, mesmo quando tentava. Todas as suas atitudes ficavam atreladas a esse homem: queria vingar-se dele, ou fugir dele, ou atazaná-lo - cada dia uma decisão, mas todas relacionadas a ele. Só quando reatavam (e sempre reatavam) é que ela descansava um pouco desse estresse emocional e se reconciliava com ela mesma.
Eu nunca havia analisado o assunto por esse ângulo. Sempre achei que a sensação de asfixia era derivada de uma união claustrofóbica e a sensação de liberdade só era conquistada com o retorno à solteirice. Mas o amor, de fato, possui artimanhas complexas. Minha amiga finalmente terminou sua relação tumultuada e hoje está vivendo um casamento mais maduro e sereno. Aquele nosso papo foi há alguns anos, mas nunca mais esqueci essa inversão de sentimentos que explica tanta angústia e tanta neura. Por que temos urgência de abandonar um amor pelo fato de ele não ser fácil? Quem garante que sem esse amor a vida não será infinitamente mais difícil? Às vezes é melhor uma rendição que nos garanta liberdade do que fugir de um amor que não foi vivido até o fim.
Foi isso que nossa amiga psicanalista quis dizer durante o jantar: não antecipe o término do que ainda não acabou, espere a relação chegar até a rapa, e aí sim.


Enquanto isso, eu espero.

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